Fantasporto 2023 – Os Filmes – Parte 1/3.

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Fantasporto 2023

O Fantasporto – Festival Internacional de Cinema do Porto está de volta, desta vez a uma nova casa, o Batalha Centro de Cinema. Segundo a organização, na sua 43ª edição foram submetidos filmes de 67 nacionalidades, sendo que a selecção oficial se salda em 86 antestreias absolutas em Portugal, de 30 nacionalidades, com destaque para a cinematografia europeia.

Abaixo, poderão encontrar a 1ª parte de toda a programação para a Sala 1. As informações são as fornecidas pela organização do Fantasporto. Após cada sessão, podem encontrar aqui a apreciação/crítica e classificação de cada um dos filmes exibidos. Junto à informação de cada filme está também o link de compra de bilhetes para cada sessão. Podem também consultar a programação da Sala 2 aqui.

6ª FEIRA, 24 de FEVEREIRO

21.15 • SESSÃO OFICIAL DE ABERTURA – “Shepherd
Fantasporto 2023 - Shepherd

Russell Owen – 104’ (G.B.) – CF – v.o. leg. port. | Bilheteira

Um dos melhores exemplos recentes do horror britânico. Perdido de dor pela morte da sua mulher que estava grávida, Erik Black volta à remota terra natal, aceitando um trabalho como pastor. A paisagem agreste irá curá-lo. Mas o seu esconderijo perfeito cedo se torna um pesadelo a que não pode fugir quando um espírito vingativo o segue e o vai confrontar com a sua própria sanidade. Com Tom Hughes, actor da série de televisão “Victoria” (Prince Albert), e Greta Scacchi de “Brideshead Revisited”, actriz em cerca de 100 filmes. “Shepherd” estreou no BFI London Film festival. Considerado pela crítica inglesa um dos 5 melhores filmes do ano.

Apreciação: Abertura morna para o Fantasporto 2023. Por um lado, “Shepherd” é um slow burner com magnifica fotografia e desenho de som. Por outro é um filme que vai construindo algo que não sabe bem o que é e isso sente-se a partir de metade. O pior é que toda aquela construção primorosa da primeira metade dilui-se num terceiro acto cheio de clichés e explicações forçadas que atiram o filme para a mediania. Owen dá provas de que tem algo a oferecer na realização, mas precisa de mais ajuda na escrita. Destaque para uma Greta Scacchi irreconhecível.

Classificação:★★★

23:30 • “Cult Hero
Fantasporto 2023 - Cult Hero

Jesse Thomas Cook – 105’ (Can) – CF – v.o. leg. port. | Bilheteira

Uma mulher empresária com a mania do controle pede ajuda a um pseudo-detective perito em cultos em declínio, para libertar o marido das garras de um grupo de “bem-estar”. Mas o marido sente-se tão bem que não quer voltar para ela. O cinema de comédia com horror à mistura, com grande sentido de humor e belas interpretações.

Apreciação: Comédia que parte de uma ideia interessante, mas opta por um estilo camp e absurdo que lhe tira toda a graça que poderia ter. Chega a ser penoso ver o histrionismo de algumas interpretações, num filme que precisava de melhor orçamento para conseguir ser minimamente convincente. Ou engraçado. É a prova de que é muito mais difícil fazer comédia do que drama, e de que o humor não pode, nem deve, ser forçado.

Classificação: ½★★★★

SÁBADO, 25 de FEVEREIRO

15:15 • “Dead Bride”
Fantasporto 2023 - Dead Bride

Francesco Picone – 83’ (Itá) – CF – INTERNATIONAL PREMIÈRE – v.o. leg. port. | Bilheteira

Alyson, o marido e o seu bébé voltam à casa da infância da mulher, onde cedo se tornam vítimas de vários fenómenos que se prendem com os pais, abusivos e violentos. Um dos melhores filmes de horror de 2022, na tradição do cinema italiano de Argento e Fulci.

Apreciação: “Dead Bride” padece de vários males: apesar de ter bons valores de produção, não tem um pingo de originalidade ou criatividade. Tudo aqui é previsível e decalcado de dezenas de outros filmes de possessões e exorcismos que já vimos. Todas as voltas do argumento e sustos são previsíveis a léguas e não têm o mais pequeno efeito no espectador. Mas o mal maior é que, sendo um filme 100% italiano, optaram por rodá-lo em inglês. O resultado é penoso, porque os actores estão mais preocupados em debitar o texto numa língua que não é a deles do que em interpretá-lo, o que resulta numa quebra involuntária da quarta-parede e retira toda a verosimilhança ao filme.

P.S. – Quem escreveu na ficha do filme que este é “na tradição do cinema italiano de Argento e Fulci, devia rezar 20 Avé-Marias e 10 Pai-Nossos como castigo.

Classificação: ★★★★

17:00 • “Convenience Story
Fantasporto 2023 - Convenience Story

Satoshi Miki – 95’ (Jap) – CF/OE – v.o. leg. port. | Bilheteira

Um argumentista em crise, abandona o cão da namorada num campo para não ter de tratar dele. Arrependido, volta ao sítio onde o deixou, mas o cão desapareceu. Entra então numa loja de conveniência de uma estação de serviço que fica perto. Uma realidade paralela o espera, assim como uma mulher casada que vai desbloquear a sua criatividade. Uma história da imaginação muito original e inesperada.

Apreciação: Oportunidade falhada de termos um bom filme japonês criativo e artístico. Não que Convenience Story seja mau, não é, mas quer tanto ser Lynchiano que perde o espectador no meio da sua narrativa semi-(des)construída e aberta. Tem bons momentos e ritmo narrativo, é eficaz na criação de personagens e situações interessantes, mas no geral perde-se na sua pretensão, o que resulta num filme mediano que tinha tudo a seu favor para ser muito mais do que isso.

Classificação: ★★½★★

19:00 • “Narcosis
Fantasporto 2023 - Narcosis

Martijn de Jong – 118’ (Hol) – SR – v.o. leg. port. | Bilheteira

Filme candidato a nomeação aos Óscares pela Holanda, vencedor do International Panorama no Festival de Cairo, Melhor Filme no Netherlands Film Festival e Prémio do Público no festival de Thessaloniki. Uma mulher perde o marido e tem de lidar com o facto de o corpo nunca ter sido encontrado. Lidar com os dois filhos e as dificuldades económicas levam-na a reatar a sua actividade como vidente mas as escolhas não são fáceis. Com um olhar seguro sobre a perda e uma excelente interpretação de Thekla Reuten, a actriz de “Marionette”, apresentado no Fantasporto de 2021 onde venceu o Prémio de Melhor Actriz, “Narcosis” é a primeira longa-metragem do realizador.

Apreciação: Da Holanda já tínhamos visto “Marionette“, no Fantas de 2021, com a mesma Thekla Reuten (“In Bruges“), que aqui teve melhor sorte com o filme que lhe calhou. “Narcosis” é um estudo sobre o luto (e um luto particular, porque não há corpo que permita a devida despedida) de uma família que perde o seu elemento unificador de um momento para o outro. É um filme lento, porque precisa de tempo para que a narrativa ganhe peso e urgência. Mas esse tempo está repleto de pequenos pormenores de são agregadores de verosimilhança e solidez narrativa, assentes em belíssimas interpretações do quarteto que compõe o núcleo familiar. Há uma fotografia imaculada que estrai angustia de situações corriqueiras. O belíssimo plano inicial é importantíssimo para definir o tom do resto do filme, mesmo que aquilo que se lhe siga sejam momentos felizes. Mais do que personagens, há gente neste filme, com as mesmas forças e defeitos que nós, e isso é fundamental para nos envolver, sem artifícios ou truques, apenas verdade. Ainda é cedo, vamos no 2º de 9 dias e há bons filmes pela frente, mas “Narcosis” é já um sério candidato aos prémios na Semana Dos Realizadores.

Classificação: ★★★

21.15 • “Life of Mariko in Kabukicho
Fantasporto 2023 - Life of Mariko in Kabukicho

Eiji Uchida, Shinzô Katayama – 117’ (Jap) – CF/OE – v.o. leg. port. | Bilheteira

Filme vencedor do White Raven do Festival de Cinema Fantástico de Bruxelas, é também uma deliciosa rede de histórias que fazem lembrar clássicos do cinema como “ET” ou “Basket Case”. Em tom de comédia, seguimos as vidas dos clientes de um café em Kabuchiko. Extra-terrestres, uma investigação do FBI, amores estranhos, e alguns assassinatos são os temas. O elo de todas estas histórias é Mariko, a dona do café que também é detective.

Apreciação: Outro filme japonês que tinha tudo para ser melhor do que é, mas quis meter o Rossio na Rua da Betesga. Life of Mariko in Kabukicho” é um emaranhado de estórias que se perde nas ligações e na uniformidade. Parte dos pontos de partida errados (a estória do E.T. e dos agentes do FBI com jurisdição no Japão, e a ligação da trama com os Yakuzas) e perde o foco nas partes mais interessantes e que lhe davam mais solidez (a estória de Mariko e do grupo que se reúne no seu pub). Enquanto estudo de personagens, é bastante interessante, mas ao optar por não ser apenas uma comédia dramática e juntar-lhe a ficção-cientifica (e os fracos efeitos especiais não ajudam) e o thriller criminal perde tempo com superficialidades que se tornam chatas por não serem verosímeis, e deixa cair algumas das personagens mais interessantes do cinema japonês deste Fantasporto.

Classificação: ★★★

23.30 • Megalomaniac
Fantasporto 2023 - Megalomaniac

Karim Ouelhaj – 100’ (Bel) – CF – CENAS EVENTUALMENTE CHOCANTES – v.o. leg. port. | Bilheteira

Os irmãos Martha e Felix vivem numa casa grande e velha que lhes foi deixada pelo pai, o notório Carniceiro de Mons. Além desta herança, Martha tenta proteger o irmão que é, como o pai, um serial killer. Abusada no trabalho, Martha tem de encontrar o equilíbrio entre a violência de Felix e os traumas na sua própria vida. Filme vencedor do importante Prémio Cheval Noir no Festival Fantasia (Canadá) é mais um bom exemplo do moderno cinema belga de horror. Excelente interpretação de Eline Schumacher, no seu primeiro papel no cinema.

Apreciação: Enquanto filme de terror puro e duro, “Megalomaniac” é o melhor que vimos até agora neste Fantasporto, mas é um filme que peca por excesso (de horror abstracto e de tempo). Podia ser melhor se não se perdesse em imagens e narrativas acessórias e se centrasse naquele bizarro núcleo familiar. Visualmente é bem conseguido e tem imagens impressionantes, mas que existem pelo factor choque e não por contribuírem para a narrativa. O filme é bastante competente e não será muito criticado pelos fans hardcore do género, mas enquanto suposto filme-choque desta edição está muito longe de um “A Serbian Film“, só para dar um exemplo.

Classificação: ½★★

DOMINGO, 26 de FEVEREIRO

15.15 • “The Thing Behind the Door”
Fantasporto 2023 - The Thing Behind the Door

Fabrice Blin – 81’ (Fra) – CF – INTERNATIONAL PREMIERE – v.o. leg. port. | Bilheteira

Uma jovem mulher vê o marido partir para a guerra antes de terem o desejado filho. Sabendo que o marido morreu e na posse de um livro demoníaco, ela vai tentar trazê-lo de volta dos mortos. Mas que seres são aqueles que estão num casulo? Um belo exemplo de novo terror fantástico a que não será alheio o facto de um dos produtores e argumentista, ser o ilustrador e designer Jean Marc Toussaint que esteve no Fantasporto em 1996 e depois foi mesmo o autor do cartaz do festival em 1997. Para os amantes do horror fantástico.

Apreciação: Finalmente, ao terceiro dia, um bom filme de terror neste Fantasporto. E não é que premissa seja original, mas é um filme que faz algo no género que é difícil de encontrar hoje em dia: o espectador não fazer a mínima ideia do que vai acontecer a seguir. Já falei disto, o género do terror tem fórmulas que são semirrígidas e não há muito a fazer. Sustos, twists no argumentos e outros mecanismos são facilmente identificáveis e previsíveis para quem já viu centenas deles, mas “The Thing Behind The Door”, pega nos clichés básicos e depois desenvencilha-se deles de forma surpreendente. E está muito bem feito, com boas interpretações e efeitos especiais e um guião que está sempre um passo à frente do espectador. E é refrescante quando espectadores veteranos no género ainda conseguem ser surpreendidos.

Classificação:

17.00 • The Game
Fantasporto 2023 - The Game

Péter Fazakas – 110’ (Hun) – SR – v.o. leg. port. | Bilheteira

Budapest. O agente de contra-espionagem András vive a vida perfeita. Está casado e feliz com Eva e o único obstáculo entre ele e a promoção desejada é um colega, Kulcár. Quando o renomado espião Pál Markó, volta para tratar de um caso mal resolvido, András vai compreender que até um simples gesto humano lhe pode custar a vida. O filme recebeu os prémios de Melhor Filme, Actor, Actriz e Argumento no Festival do Filme Húngaro em Los Angeles.

Apreciação: A Hungria nunca decepciona quando vem ao Fantas. “The Game” é um filme de espiões no sentido clássico, com intriga política, agentes duplos, excelentes personagens e reviravoltas na estória até ao último minuto. É um excelente entretenimento feito com a segurança e competência de quem sabe que não vai mudar o mundo, mas vai provocar duas horas de prazer inteligente. Excelente guião, interpretações, fotografia e banda sonora, solidificados por uma realização pragmática e objectiva fazem deste um excelente exemplo de que o velho continente ainda tem umas coisas a ensinar a Hollywood. E saber a história de János Kulka, contada pelo realizador, ajuda a colocar uma perspectiva ainda mais humana na sua personagem e dá-lhe uma desnecessária emoção extra.

Classificação:

19.15 • S.Ó.S.
Fantasporto 2023 - S.Ó.S.

Tiago Santos – 85’ (Port) – CF/PCP – WORLD PREMIÈRE – v. o. port. / leg. ing. | Bilheteira

Num mundo pós-apocalíptico em que a rotina dos dias, horas e minutos são a única companhia, um sobrevivente lida com as dificuldades e desafios da solidão, fome e do medo que se impõe, a cada dia que passa, às ameaças existentes. Que ruídos são esses que o perturbam na casa isolada? Quem o persegue? A quem persegue ele? Excelente interpretação de Ivo Saraiva e uma realização dinâmica de Tiago Santos nesta sua primeira longa-metragem.

Apreciação: Torço sempre pelos filmes portugueses que vem à montra internacional de cinema que é o Fantas, e é sempre triste (e frustrante para mim que tenho de os criticar) quando um filme fica abaixo das expectativas. É infelizmente o caso deste “S.Ó.S.” (ou “Sós”?) a que claramente faltam ideias e objectivos. E o que é mais frustrante é que há competência técnica, mas o filme nunca desenvolve a narrativa e cansa o espectador. E, falando por mim, não foi falta de vontade, o filme consegue realmente criar expectativa, mas quando se aproximam os momentos em que parece que algo vai acontecer (e precisa de acontecer), que vai responder a questões, criar novas e renovar o nosso interesse, tudo fica na mesma. Até ao final. É um exercício de resistência que não é compensado e é demasiado longo para ser apenas isso. Tivemos outro exemplo nacional neste género no Fantasporto 2020 com “Bunker ou Contos Que Ouvi Depois Do Mundo Acabar“ do João Estrada, com resultados bem diferentes (venceria o prémio do Cinema Português para melhor filme). “S.Ó.S.” tem uma excelente sonoplastia, mas isso não chega pra hora e meia sem destino.

Classificação:

21.15 • “Bad City
Fantasporto 2023 - Bad City

Kensuke Sonomura – 118’ (Jap) – CF/SR/OE – CENAS EVENTUALMENTE CHOCANTES – v.o. leg. port. | Bilheteira

O presidente da poderosa Gojo Conglomerate manda matar um a um os yakuzas e quase todos os seus opositores. Depois, anuncia que vai concorrer a “mayor” e que a sua cidade terá mais segurança se ele for eleito. Mas uma brigada especial e secreta da polícia vai investigá-lo e derrotá-lo. Com excelentes interpretações, especialmente de Hitoshi Ozawa no papel do chefe da equipa policial, este é um dos melhores exemplos do thriller japonês, cheio de acção mas não descurando a construção das personagens.

Apreciação: Do Japão chega-nos um policial de acção puro e duro, que não tem pretensão a ser mais do que bom entretenimento. E consegue-o. “Bad City” tem intriga política, Yakuzas, policiais acostumados com crime violento e muita acção, com cenas de pancadaria muito intensas e bem coreografadas. Os personagens são sólidos, o ritmo é intenso e constante, e a banda sonora vibrante serve-o na perfeição, mostrando que o cinema popular japonês é muito mais do que piadolas sem graça, histrionismos vários e grafismos impróprios para epiléticos. É bem escrito, realizado e interpretado, e só peca por, sendo tão competente, não ser mais ambicioso.

Classificação: ½

Que filmes estão a pensar ir ver nesta edição do Fantasporto, e qual vos chama mais a atenção?

Parte 2 da programação do Fantasporto 2023.

Parte 3 da programação do Fantasporto 2023.

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