Cinema 2022 – Os Melhores (e piores).

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Chegou a altura do ano de fazer um balanço do ano cinematográfico, a que chamo Cinema 2022. Mas antes tenho de fazer um reparo: com quase duas centenas de filmes vistos, noto que a maioria deles não estreou nem ficou disponível para streaming em Portugal (só nos dez dias que durou o Fantasporto, dos cerca de quarenta filmes vistos só 1 teve estreia nos nossos cinemas). Isto fez com que o meu filme do ano, “The Banshees of Inisherin” (que seria o meu número 1), não conste nesta lista porque só estreia em Fevereiro e só entrará nas contas do próximo ano. Claro que, sendo este um espaço pessoal meu, eu poderia contornar as regras que gerem este tipo de lista nas publicações nacionais (e ando a ponderar fazê-lo nas próximas), mas para já vou continuar a cingir-me a elas. Assim sendo, todos os filmes aqui listados foram estreados nas salas e/ou foram lançados nas plataformas de streaming (neste caso adicionarei os links respectivos).

Cinema 2022 – Os Piores.

Km 224”, de António Pedro Vasconcelos.

É inacreditável o quão mau é “Km 224”, principalmente por ser de António Pedro Vasconcelos, um realizador experiente que consegue geralmente prender-nos a atenção com boas estórias. Só que aqui já não tem a colaboração de Tiago R. Santos (que escreveu os seus últimos cinco filmes), e o resultado é uma parvoíce completa. O filme é enfadonho, mal interpretado, de um amadorismo atroz no que diz respeito à gestão da narrativa e muito, muito estúpido no terceiro acto. Vasconcelos escreveu-o com Filipa Martins, que anteriormente tinha escrito filmes e séries biográficos interessantes (sobre, Egas Moniz, as Doce, Maluda ou as Três MulheresNatália Correia, Snu Abecassis e Vera Lagoa), dando provas de que conseguia gerir bem uma narrativa, desde que ela já estivesse delineada pela realidade. Na criação de situações ficcionais, e tendo este filme como único exemplo, é um desastre. Mas nem é esse o único problema do filme: Vasconcelos nunca fui um esteta, a fotografia dos seus filmes sempre foi muito pragmática e mais televisiva que cinematográfica (com excepção para “Os Imortais“, fotografado por Barry Ackroyd). A ironia é que Tiago R. Santos se estreou este ano na realização com “Revolta“, e dá uma lição de encenação cinematográfica a Vasconcelos. Apenas com quatro personagens e um único décor, Santos consegue planos belíssimos que apetecem admirar para além da sua duração. Em “Km 224”, tudo o que queremos, em vão, é que as suas 2 horas e 19 minutos passem o mais depressa possível. Resta-me fazer votos que este filme seja só um acidente de percurso, e Vasconcelos volte a entregar-nos estórias minimamente interessantes e com dois dedos de testa.

Classificação: ½★★★★

Link para “Km 224” na HBO Max.

Halloween Ends“, de David Gordon Green.

É uma pena, mas David Gordon Green volta a estar, pela segunda vez consecutiva, nos piores do ano, com a última parte da sua trilogia “Halloween“. E é uma pena porque o legado de John Carpenter, estas personagens e este franchise mereciam melhor desfecho. Depois da terrível ideia de trazer personagens secundários do original, de quem ninguém se lembrava, para serem apenas carne para canhão, aqui inventa-se um sucessor para Michael Myers, vá-se lá saber por quê. Este não era o filme para se inventar, mas sim para concluir de forma digna (e sangrenta) uma estória acarinhada por muitos. Mas nada aqui faz sentido, nenhuma personagem age de forma lógica, a sucessão de acontecimentos é precipitada e tudo nos parece imposto de forma leviana e inconsciente. O pior é que o último confronto do filme até nem é mau, mas quando o momento chega nós já só queremos é que o filme acabe o mais depressa possível.

Classificação: ½★★★★

Texas Chainsaw Massacre“, de David Blue Garcia.

Já escrevi tudo o que tinha para escrever sobre esta última incursão à personagem de Leatherface aqui, mas posso reforçar o seguinte: “Texas Chainsaw Massacre” tem uma ou outra morte criativamente filmada e um momento com piada, tudo o resto é banal, pouco interessante e um apelo desesperado a uma nova geração interessada no género para que descubra uma das suas personagens mais icónicas. O meu conselho é que vejam o original de Tobe Hooper.

Classificação: ★★★★

Link para “Texas Chainsaw Massacre” na Netflix.

Cinema 2022 – Menções Honrosas.

Vortex“, de Gaspar Noé.

Ultimamente, muitos filmes se têm debruçado sobre a Demência, e os efeitos que têm nos pacientes e naqueles que os rodeiam. No meu Top 10 do ano passado estavam dois desses exemplos, “Supernova” e “The Father“. Agora foi a vez de Gaspar Noé abraçar o tema, centrando-o num casal de idosos, em que um dos cônjuges sofre da doença. Mas o que torna o filme ainda mais envolvente e emocionante é o facto de haver duas câmaras a filmar a acção (mesmo quando ela acontece num só sítio) e apresentar-nos todo o filme em split secreen, sempre com as duas imagens em simultâneo. O resultado é que a atenção do espectador é redobrada e a emoção bate muito mais forte. O ritmo lento e realista desta realidade é reforçado por duas das grandes interpretações do ano, Dario Argento e Françoise Lebrun. É um filme brutal (no verdadeiro sentido) a que a maioria das pessoas não voltará, mas que perdura na nossa memória e emoções durante muito tempo.

Classificação: ★★★

Um Filme Em Forma De Assim“, de João Botelho.

aqui falei deste magnífico filme de João Botelho, e não me vou alongar muito agora. “Um Filme Em Forma De Assim” é um objecto estranho na nossa cinematografia, mas, ao mesmo tempo, não podia ser de outra qualquer. Disse, no outro texto, que é hipnótico, envolvente e sedutor. E é nosso, do povo. Saiba o povo encontrar-lhe o caminho…

Classificação: ★★★

Guillermo del Toro’s Pinocchio“, de Guillermo del Toro e Mark Gustafson.

Este Pinocchio de Del Toro é uma variação negra e adulta de uma estória que todos pensamos conhecer, mas as pequenas alterações narrativas que o realizador lhe introduz dão-lhe fôlego e vitalidade, tornando-a um objecto novo que descobrimos como se a estivéssemos a ver pela primeira vez. Claro que o estilo em que está realizado contribui muito para isso, com uma prodigiosa animação em stop motion, com marionetas tão meticulosas (e caras) que parecem vivas, de tão imperfeitas que são. Com um magnífico elenco que as enche de vida e cenários tão pormenorizados que parecem reais, este Pinocchio é envolvente, mais realista e assustador que nunca, ou não tivesse saído da mente de Del Toro.

Classificação: ★★★

Link para “Guillermo del Toro’s Pinocchio” na Netflix.

Decision To Leave“, de Park Chan-wook.

Park Chan-wook não sabe fazer maus filmes, mesmo quando experimenta géneros ou linguagens pela primeira vez. Aqui Chan-wook visita o film noir com a originalidade que geralmente o caracteriza, quer em termos plásticos, quer emocionais. Existem aqui resquícios da violência que lhe é característica, mas é sobretudo em termos emocionais que o realizador explora essa mesma violência, na estória de um detective experiente que investiga a morte de um homem cuja viúva é a principal suspeita, e acaba por se apaixonar por ela. Chan-wook explora a paixão da mesma forma que o sentimento de vingança nos seus filmes mais conhecidos. Mas, talvez por ser um realizador mais maduro, há aqui uma melancolia latente que inquieta mais que tudo. E é a beleza dessa inquietação que perdura muito depois do final do filme.

Classificação: ★★★

Moonage Daydream“, de Brett Morgan.

É difícil ficarmos indiferentes a David Bowie, mesmo que não sejamos fãs, quando nos aproximamos dele tanto quanto aqui. Morgan mergulha no material de arquivo do camaleão e organiza-o numa narrativa exploratória da sua personalidade muito peculiar, intercalando excertos de entrevistas e reflexões na primeira pessoa com actuações ao vivo inéditas e/ou raras. Mas é na escala que o filme surpreende, no forçar dessa aproximação, num ecrã Imax que nos envolve e aprisiona na arte pura de Bowie. Psicadélico, vibrante e ostensivo, hipnotiza-nos com as palavras e sons de uma das estrelas Rock mais originais e peculiares de sempre, apresentado-o, nas suas próprias palavras, a quem pensava conhecê-lo. Há uma partilha quase obsessiva de Morgan da sua paixão por Bowie, e a audácia de transformar uma estrela num ser humano.

Classificação: ★★★½

Cinema 2022 – Top 10.

#10 – “Por Detrás da Moeda” de Luís Moya.

Cinema 2022 #10 - Por Detrás Da Moeda

Vi-o no Fantasporto em 2020, mesmo antes de entrarmos todos no primeiro confinamento. Pouco mais de dois anos e meio depois, chegou ao grande público, tendo estado duas semanas nas salas de cinema de norte a sul. E, como já o tinha escrito aqui, este filme precisava de público e o público, sem o saber, precisava deste filme. Luís Moya aventura-se pelas ruas do Porto à procura de saber o que faz os músicos de rua partilharem a sua arte desta forma, e descobre razões pessoais e sociais, e uma história invulgar de queda depois do sucesso, que precisava de ser contada. É um filme de grande humanidade e ternura, feito com o mesmo espírito de guerrilha dos músicos que retrata. Indispensável.

Classificação: ★★

#09 – “Prey” de Dan Trachtenberg.

Cinema 2022 #09 - Prey

“Prey” foi uma das surpresas do ano, porque já ninguém daria nada por outro filme da saga “Predator“. Só que, como já escrevi aqui, o filme de Trachtenberg revelou-se uma belíssima estória original, mais bem contada que qualquer dos seus antecessores, com um respeito enorme pelo legado, não só dos filmes que o precederam, como da Nação Comanche em cuja tribo se passa a acção. É tudo extremamente bem feito e com bom gosto, e fez algo que os dois anteriores não conseguiram: deixou-nos a desejar mais.

Classificação: ★★★½

Link para “Prey” na Disney +.

#08 – “Men” de Alex Garland.

Cinema 2022 #08 - Men

“Men” é o terceiro filme de Alex Garland como realizador, e o seu filme mais difícil de digerir. Como já disse aqui, é repleto de alegorias e metáfora expostas em contradições que nos obrigam a pensar. É hipnótico, na sua beleza e no seu horror. É intenso e perturbador, mas também contemplativo e apaziguador. É bruto e terno. É um espelho cruel e intensionalmente ambíguo que nos reflete a nós, homens, no contexto de uma só mulher.

Classificação: ★★★½

#07 – “Everything Everywhere All At Once” de Daniel Kwan e Daniel Scheinert.

Cinema 2022 #07 - Everything Everywhere All At Once

O filme surpresa do ano, um merecido fenómeno de popularidade, é sobretudo um complexo estudo da crise de identidade, tema que não costuma ter este tipo de atenção. Se juntarmos a isto muita parvoíce, uma premissa digna de filme da Marvel e dildos vários, temos os ingredientes certos para um desastre cinematográfico. E é isso que parece durante boa parte do filme. Só que não. À medida que o filme avança, todas as peças se vão encaixando, formando um mosaico de variações das mesmas personagens, em que cada uma contribui para a versão geral. Verdade seja dita, Os Daniels conseguem aqui a proeza de extrair emoção, sentimento e lágrimas ao espectador em momentos belíssimos, entrecortados por disparates e muita, muita acção. Tudo é bem feito, servido por um elenco fantástico, e a mensagem final é de grande beleza, levando a que este seja um dos grandes candidatos à temporada de prémios em que estamos.

Classificação: ★★★½

#06 – “The Menu” de Mark Mylod.

Cinema 2022 #06 - The Menu

“The Menu” surpreendeu-me muito, pelos temas que aborda, pelo conceito e pela forma como tudo parece simples de executar. Mas o diabo está nas entrelinhas. Filme directo, sem perder tempo com subplots desinteressantes, um mistério que se vai adensando, uma refeição que é um deleite para os sentidos e um conjunto de personagens peculiar e complexo, servido por excelentes interpretações. Há aqui um microcosmos representativo da sociedade e uma leitura a tirar dos acontecimentos, mas Mylod quer sobretudo entreter-nos e intrigar-nos, de forma inteligente, apelativa e, sobretudo, sensorial. E com a classe que uma boa refeição merece.

Classificação: ★★★½

“The Menu” estará disponível na Disney + dia 18 de Janeiro.

#05 – “Top Gun: Maverick” de Joseph Kosinski.

Cinema 2022 #05 - Top Gun: Maverick

O que mais impressiona em “Top Gun: Maverick” é que este filme não tinha o direito de ser tão bom. Vi o original na adolescência (melhor altura para alguém o ver) quando estreou, e apesar de gostar muito e de já ter perdido a conta às vezes que o vi, o terceiro acto nunca me fez muito sentido. Ora, Joseph Kosinski, Tom Cruise e Christopher McQuarrie devem ter identificado o problema, porque o resolveram, além de entregarem tudo aquilo que se espera de uma sequela de um filme com 37 anos. Com uma estória bem engendrada (uma missão impossível, até para os melhores) com suspense e adrenalina de cortar à faca, nostalgia alicerçada nas personagens, planos incríveis na execução, e banda sonora orelhuda e possante, é um filme de grande espectáculo que deve ser visto no maior ecrã possível. E depois há o drama, a emoção e o risco daquilo que é essencial: as relações humanas. Nesse sentido é onde o inesperado acontece, porque “Top Gun: Maverick” tem personagens riquíssimos na sua tridimensionalidade e explora-os nos fracassos e nas vitórias, nos conflitos e nas aproximações. Na vida, portanto. E é por essa parte do filme ser tão real que não duvidamos de tudo o resto (também porque sabemos que Cruise é perfeccionista no realismo), e nos emocionamos, por maior e mais rija que seja a nossa barba. Foi (merecidamente) o maior sucesso comercial do Cinema 2022.

Classificação: ★★★½

Link para “Top Gun: Maverick” na SkyShowtime.

#04 – “Bones And All” de Luca Guadagnino.

Cinema 2022 #04 - Bones And All

“Bones and All” é uma estória de amor entre jovens adultos canibais. Obrigado e bom dia.

Ok, eu explico: Guadagnino usa a premissa da forma mais natural possível. É isso que é desarmante aqui. Apesar do tema ser complexo e poder indicar tratar-se de um filme de terror, o maior horror está nas emoções, numa idade em que ainda não sabemos controlá-las (se é que alguma vez saberemos). O canibalismo é usado aqui como metáfora para uma qualquer disfuncionalidade física ou emocional, e o filme desenrola-se como uma estória de superação, de passagem à idade adulta e de amadurecimento pessoal e emocional. Claro que tem imagens fortes e de filme de género, é uma condição muito particular a destes protagonistas, mas é na caracterização das personagens (servidas por um excelente elenco) e dos seus conflitos interiores e exteriores que o filme se torna grande.

Classificação: ★★★½

#03 – “The Fabelmans” de Steven Spielberg.

Cinema 2022 #0 - The Fabelmans

É o filme autobiográfico de Spielberg. Poderia (ou deveria?) chamar-se “The Spielbergs”. O realizador volta à sua infância e adolescência, ao seu ambiente familiar ‘normal’ e conta-nos, com todos os pormenores, como nasceu a sua paixão pelo cinema e como a concretizou. De Spielberg esperamos sempre emoção, mas aqui nota-se tanto a aproximação aos personagens (a quem lhes deu outro nome, talvez para forçar algum distanciamento), que é palpável o carinho nostálgico que lhes tem. O cinema aparece aqui com uma função salvadora (à medida que a felicidade familiar se vai desvanecendo é a ele que se agarra) e torna-se objecto de felicidade alternativa. E se a escala de qualquer filme de Spielberg é maior do que a vida, esta, a sua, teve de ser reduzida ao essencial para caber aqui. “The Fabelmans” é terno, emotivo e reconfortante, mas é sobretudo uma carta de amor do realizador aos pais e ao cinema.

Classificação: ★★★½

#02 – “Crimes Of The Future” de David Cronenberg.

Cinema 2022 #02 - Crimes Of The Future

Já falei sobre “Crimes Of The Future” aqui, portanto vou ser ainda mais sucinto. Não é certamente um filme para qualquer pessoa, ou não tivesse saído da mente de David Cronenberg. O seu já característico body horror serve aqui como desculpa para levantar questões que o inquietam sobre a sociedade e o seu (ou nosso) futuro. Travestido de film noir, é provocante, inquietante, sensual e desafiador.

Classificação: ★★★½

#01 – “The Worst Person In The World” de Joachim Trier.

Cinema 2022 #01 - The Worst Person In The World

Foi o candidato Norueguês aos Óscares do ano passado, tendo sido nomeado para Melhor Filme Internacional e Melhor Argumento Original. É uma estória simples mas profunda, realista, crua e bruta (a espaços). Julie é uma mulher de 30 anos, inconformada com a sua vida, com a sua relação, com o que esperam dela. Não sabe propriamente o que quer, mas sabe que não é o que tem. E muda. Muda o visual, o namorado, a opinião. Muda para ficar tudo na mesma. O inconformismo fica na mesma. Arrepende-se, como sabia que ia acontecer. “The Worst Person In The World” é vida real. Só. O título é enganador, ou então reflete o que Julie representa para ela própria. E Trier filma isto tudo com uma aparente simplicidade, mas dotando-a de pormenores criativos que fazem toda a diferença: momentos de realismo mágico ou de narração redundante. São pequenos pormenores que nos agarram ainda mais a uma estória que podia ser a nossa, sem que percebamos o porquê. Tudo bate certo, e é aparentemente tão simples, mas se realmente o fosse não batia tanto.

Classificação: ★★

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