A Decadência do Cinema de Terror – “Scream” e “Texas Chainsaw Massacre”.

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Nos últimos meses estrearam 3 novas entradas em franchises de cinema de terror, cujo 1º filme tem entre 26 e 48 anos: “Halloween Kills“, “Scream” e “Texas Chainsaw Massacre“. Sobre o primeiro já falei aqui, sobre os outros dois tecerei alguns comentários para que possamos fazer uma relexão sobre o actual estado do género e, principalmente, porque é que ele está moribundo.

“Scream” de Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett.

“Scream” é um caso curioso. Sendo o franchise que começou mais tarde, teve 2 sequelas (embora fizessem parte de uma trilogia programada), uma espécie de reboot, um spin-off televisivo, e agora aquilo que o próprio apelida de ‘requel‘ ou ‘legacyquel‘. O intuito é o mesmo, o de auto-parodiar o género slasher, estudando-o, descontruindo-o e (supostamente) reinventando-o. O primeiro problema é que esta fórmula está a tornar-se redundante. O conceito é tão bom, que é difícil pegar nele como se fosse a primeira vez, injectando-lhe novidade e qualquer variante na fórmula e no conceito. O segundo problema, neste filme em concreto, é não ter Kevin Williamson na escrita e Wes Craven na realização (o realizador faleceu em 2015). Isso resulta num filme com um ritmo irregular e que se torna enfadonho em algumas partes, com o equilibrio entre tensão e humor a não ser tão fluído quanto nos filmes de Craven.

Depois temos uma galeria de personagens que sabemos ser carne para canhão, em que um (ou mais) será o assassino, servida por um elenco irregular. E a volta dos sobreviventes (e não só) do filme original. E isto poderá ser outro problema: a dispersão de empatia e de suspeita que nos dificulta o empenho nestas personagens (o que não acontecia na trilogia original). A violência é também maior. As mortes são mais gráficas e sangrentas, com requintes de malvadez que parecem deslocados naquilo que seria uma ironia para com o género.

Mas nem tudo é mau, há duas sequências em particular que são muito eficazes: aquela em que uma personagem está na cozinha, a preparar uma refeição, e todas as portas que abre nos faz antecipar a revelação do assassino. O uso da música e da fotografia neste jogo que o filme faz connosco é bem conseguido. A outra sequência é aquela em que uma das personagens originais confronta o assassino no hospital. O grau de intensidade da cena, por causa da empatia que temos com a personagem, resulta muito bem e a mesma é bem executada. Tudo o resto é mais do mesmo e faz-me questionar a relevância da continuidade da saga. Por mim, para isto, devia ficar-se por aqui.

Classificação: ★★½★★

Texas Chainsaw Massacre” de David Blue Garcia.

Este novo “Texas Chainsaw Massacre” tem exactamente a mesma premissa do “Halloween” de 2018. Voltam ao título original, fazem de conta que não existiu nenhuma sequela, reboot ou qualquer outra variante, e trazem o assassino e final girl originais para um último confronto. Ora, o primeiro problema é que, ao contrário do filme com Michael Myers, Marilyn Burns e Gunnar Hansen (a Sally Hardesty e o Letherface originais) faleceram em 2014 e 2015, respectivamente. Portanto, o factor nostalgia, que em “Halloween” tinha Jamie Lee Curtis e Nick Castle a regressarem 40 anos depois, é aqui débil e enganador. Nota-se claramente que a motivação foi: ‘se resultou com Myers também resulta com Letherface’.

Só que não. Não há aqui qualquer interesse com as personagens, nem com as antigas nem com as novas. Tudo neste filme serve apenas para pôr um psicopata com uma máscara feita de pele humana a ceifar jovens adultos (tão ou mais imaturos que os adolescentes habituais do género). A storyline é desinteressante e inverosímil, a caracterização das personagens é inexistente e a tentativa de fazer humor com as atitudes preconceituosas, auto-indulgentes e justiceiras-das-redes-sociais cai seca e redundante. A unica piada que funciona é a que está no trailer, em que, perante um Leatherface de motoserra em punho, estes novos adultos puxam do telemóvel e o ameaçam com cancelamento.

Mas nem essa diferença cultural, moral e sociológica é devidamente aproveitada para introduzir interesse neste filme, que, pasme-se, tem apenas 83 minutos. Ou seja, havia espaço para explorar mais estes elementos interessantes, ou mesmo esplorar mais a personagem de Olwen Fouéré, a nova Sally (já que as outras não tem interesse nenhum). Apenas não houve criatividade, interesse ou empenho. Tem uma ou outra morte mais criativa, mas como já disse na crítica a “Halloween Kills”, nenhum filme é melhor ou pior apenas por isso.

Classificação: ★★★

O cinema de terror está a morrer?

Se colocarmos os 3 filmes lado a lado, podemos claramente ver o que os une. Todos eles voltaram ao nome original, sem nada que os diferencie dos mesmos: “Halloween” (2018), “Scream” (2022) e “Texas Chainsaw Massacre” (2022). Note-se que o último deixou cair o “The” original, tornando-se mais genérico. E isto é uma boa metáfora para o que está a acontecer ao cinema de terror, está a tornar-se genérico. Como os medicamentos. Não interesse a marca (neste caso, o franchise), interessam as propriedades especificas e formatadas da coisa (os sustos, o gore, as personagens descartáveis).

E depois a storyline. É interessante tentar perceber de onde veio esta tendência para trazer de volta a ‘final girl‘ original. A saga Scream sempre o fez, na trilogia original. No 4º filme ainda eram os mesmos protagonistas. Neste último filme é que parece haver uma passagem de testemunho, oferecer o protagonismo a outros e trazer depois o trio original. Esta variação pode ter vindo do Halloween, que por sua vez pode ter ido buscar a idéia à própria saga Scream. E, se pensarmos bem, Craven já tinha ido buscar a ‘final girl‘ original para o último capitulo da saga “Nightmare on Elm Street” em 1994, antes de enveredar por Scream. O que é diferente em Scream, nesta questão da storyline, é que não tenta apagar todos os filmes excepto o primeiro, fazendo destes novos uma sequela directa com décadas de intervalo. Mas fala muito disso, introduzindo na discussão os termos ‘requel‘ ou ‘legacyquel‘. Ou seja, é aqui que se assume que isto é uma coisa, uma tendência, quando se lhe dá um nome.

O resultado é que todos os filmes se confundem. E isto vem do cinema generalista. Muito por culpa da Marvel, praticamente todos os grandes estúdios apostam em fórmulas de retorno imediato. Há uma homogeneidade que se traduz em conforto, a todos os níveis: da parte de qum investe e de quem assiste. Ora, algo que o cinema de terror sempre foi foi desconfortável. Faz parte do seu ADN. Provocar no espectador emoções cruas, viscerais e intensas, tirá-lo da sua zona de, lá está, conforto. Ao introduzir conforto na sua estrutura identitária estamos a despi-lo do seu propósito, da sua afirmação. Claro que ainda há quem reme contra esta maré de conformismo: Mike Flanagan, Jordan Peele ou Ari Auster (de quem não gosto mas em quem reconheço esse propósito) tentam, e conseguem-no, manter-se fiéis ao inconformismo do horror.

Mas esta minoria é forçada a procurar novos meios para se manter relevante, como a televisão ou o streaming, onde a falta de restrições de formato lhes permite espaço para envolver o espectador em novas (apesar de tradicionais) formas de o tirar da tal zona de conforto. “The Haunting Of Hill House” ou “Midnight Mass” de Flanagan e “Lovecraft Country” de Peele são exemplos maiores do cinema de terror actual, embora feitos para o formato televisivo. Não deixa de ser irónico que é onde o formato era mais claustrofóbico que se alcança maior liberdade.

Há algo a fazer para travar a morte anunciada do cinema de terror (ou, pelo menos, da sua relevância)? Não, enquanto não se travar essa tendência por parte do cinema generalista. Há que educar novos espectadores, apontar-lhes novas direcções. Se procurarmos nos canais de youtube que reagem a filmes, vemos que o cinema de terror clássico continua a ser desconfortável e a ganhar adeptos. Filmes como “Psycho” de Alfred Hitchcock ou “John Carpenter’s The Thing” continuam frescos e relevantes como quando estrearam, e a cumprirem o seu propósito. É nos canais de distribuição alternativos que se continua a encontrar diversidade e arrojo. Os festivais de cinema, como o Fantasporto (que tem nova edição a partir de dia 1), provam que se continua a tentar ser honesto e empreendedor nesta arte corrompida pelo capital. Há apenas que apontar o caminho para a sua (re)descoberta…

2 comentários em “A Decadência do Cinema de Terror – “Scream” e “Texas Chainsaw Massacre”.”

  1. Mas esta tendência para fazer sequelas de tudo, sequelas até de sagas já fechadas e que não trazem nada de novo, nem em história, nem em tema, nem em estética, não é nova.
    Será que o Terror parecia estar a escapar até agora? Será sequer possível que sagas com este tipo de impacto voltem a ser agarradas por realizadores que corram riscos?

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    • A questão não é os realizadores correrem riscos, é os estúdios e quem investe o dinheiro correrem riscos. E as sequelas do terror não são novas, claro, desde os anos 80 que são até quem faz mais sequelas, até porque o seu custo é relativamente baixo. O único ponto em que não concordo contigo é na estética. As sagas, principalmente as sequelas que tentam revitalizá-las, têm de acompanhar as modas e, principalmente, ir de encontro às novas gerações e públicos. Se olharmos para o último Scream, é muito mais violento e explicito nas mortes do que todos os outros da saga. O problema, e o ponto fundamental do meu texto, é que, copiando-se umas às outras, estas sagas perdem identidade e deixam de lado as características que as tornam únicas, porque o seu foco está noutro sítio.

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