“A Quiet Place II” – Uma oportunidade perdida.

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Em 2018, John Krasinski surpreendeu na sua estreia como argumentista e realizador com “A Quiet Place“, produzido por Michael Bay. Uma sequela era inevitável e estava pronta para estrear no início de 2020, tendo a estreia adiada por causa da pandemia. Em Maio tivemos finalmente a estreia nas salas de todo o mundo, à medida que foram retomando a actividade, e o resultado fica, lamentalvelmente, aquém das expectativas. Não que “A Quiet Place II” seja um mau filme, não é, mas tendo em conta o potencial, sabe a muito pouco.

Não há muito a dizer da estória. No final do primeiro filme, a personagem de Emily Blunt fica sozinha com três filhos (um deles recém nascido) e uma casa comprometida, o que os força a procurar novos sítios e mais gente a quem contar a descoberta fragilidade dos mortíferos invasores alienígenas.

Até aqui tudo bem, o problema é que o foco do filme não está onde deveria: nos monstros. Quando se tem um franchise deste género, já se sabe que a ameaça é o mais importante, e é por isso que se vai aumentando essa mesma ameaça, ou a sua mitologia, de filme para filme. Principalmente quando é um monstro tão bem criado como este. Se analisarmos alguns dos franchises de terror, verificamos que a ameaça foi evoluindo. Em “Aliens“, aquilo que sabíamos do Xenomorfo foi ampliado substancialmente por James Cameron em relação ao filme de Ridley Scott. A ameaça aumentou não só de número mas de forma, com a introdução da Alien Queen, e da forma de procriação do monstro, o que aumentou a sua mitologia e a própria ameaça. Em “Predator” a mesma coisa. Ao alien solitário do primeiro filme foi-se aumentando o número e as diferentes hierarquias, tornando-os uma espécie mais sólida e credível, e uma maior ameaca. E mesmo nos restantes franchises de terror que não incluem aliens. Jason Vorhees só assumiu a figura icónica que conhecemos ao terceiro filme “Sexta-feira 13“.

Ora, a única informação adicional (em relação ao primeiro filme) que “A Quiet Place II” nos dá sobre o monstro é que veio do espaço (algo que já suspeitávamos) e que não se dá bem com água, algo que nem é muito importante, pois não influi nem na mitologia nem na ameaça. Ou seja, o tipo de situações que temos neste segundo filme são exactamente os mesmos que tínhamos no primeiro. Mas não me interpretem mal, Krasinski continua a criar sequências de grande intensidade e que nos tiram momentaneamente o fôlego, só que o filme poderia ser muito mais do que continuar a correria e o jogo do silêncio do primeiro filme.

Outro exemplo é o desperdício da cena de abertura. O filme começa com o dia 1 da invasão, no exacto momento em que ela acontece. E não há dúvida que é uma boa sequência de acção, mas mais uma vez é inconsequente e não acrescenta nada ao universo do filme. Ao ver aquele início quis ver como é que aquela família alcança a segurança e como vai criando o seu pequeno universo cheio de defesas, à medida que vão recolhendo informação sobre os invasores. Mas o filme interrompe essa sequencia precocemente e dá um salto para o presente (o final do primeiro filme), abandonando uma premissa que me parecia bem mais interessante, uma prequela do primeiro filme. Aquela sequência teve apenas dois propósitos: voltar a mostrar Krasinski e introduzir a personagem de Cillian Murphy (o que poderia ter sido feito mais tarde e de muitas outras formas que não aquela).

Quanto a Murphy, nada a dizer. A sua personagem era necessária e ele tem uma excelente prestação, como sempre. Mas os créditos incluem mais dois nomes sonantes que são provavelmente os actores menos aproveitados do ano: Djimon Hounsou e Scoot McNairy. A reforçar o meu ponto, as suas personagens estão creditados como man on island e marina man, respectivamente. São tão importantes que nem lhes deram um nome. No caso de McNairy é mesmo dificil reconhecê-lo, tal é a brevidade com que aparece no ecrã. E isso resume exactamente o problema que eu tenho com este filme filme, a densidade narrativa.

Posto isto, e como já referi, “A Quiet Place II” não é um mau filme. Tem momentos de suspense e tensão bem imaginados e executados. O CGI dos monstros está mais explícito e pormenorizado. O trabalho de som continua a ser dos mais elaborados e narrativamente eficazes dos últimos tempos. Os actores que vieram do primeiro filme (Emily Blunt, Millicent Simmonds e Noah Jupe) estão sólidos e credivéis. O que aqui está é bom e bem feito. O problema é o que não está, e que seria infinitamente mais interessante do que apenas um fugaz entretenimento.

Resumindo, faltou a Krasinski a ambição que teve no primeiro filme. Já se sabe que a saga vai continuar e que Jeff Nichols será o argumentista e realizador do terceiro filme, a estrear em 2023. Espero que a sua abordagem a este universo seja mais profunda e enriquecedora, e que não seja mais uma oportunidade perdida de dar a estas criaturas (e às restantes personagens) a dimensão (e o lugar na história do cinerma) que elas merecem.

Classificação: ★★★½

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