
Sessões do Fantasporto 2026 abordadas neste artigo:
A 46ª edição do Fantasporto – Festival Internacional de Cinema do Porto arranca a 27 de Fevereiro no Batalha Centro de Cinema. Este ano, o Fantasporto 2026 apresenta filmes de 29 países, dos 73 que submeteram candidaturas, com dezenas de 1ºs filmes e 31 Antestreias Mundiais, Internacionais e Europeias, o que significa uma aposta do cinema mundial no Fantasporto. Continua a preocupação do festival em mostrar os melhores filmes que ilustram os temas da Modernidade e os seus desafios, sendo que os principais, a Guerra e a Inteligência Arficial, estão bem ilustrados nos filmes recentíssimos que se exibem, sejam eles no domínio da imaginação ou os que mostram a realidade que já presenciamos.
O laxanteCULTURAL, voltará a fazer a cobertura completa dos filmes exibidos na sala 1. Abaixo, poderão encontrar a 1ª parte de toda a programação para a Sala 1. As sinopses são as fornecidas na programação do Fantasporto. Após cada sessão, podem encontrar aqui a apreciação/crítica e classificação de cada um dos filmes exibidos. Junto à informação de cada filme está também o link de compra de bilhetes para cada sessão. Podem também consultar o resto da programação aqui.
6ª FEIRA, 27 de Fevereiro.
21.30 ✦ Sessão de Abertura ✦ “Suzuki=Bakudan“

Akira Nagai – 136’ (Jap) – SR/OE – thriller- v.o., leg ingl e port | Bilheteira
Um homem preso por estar embriagado e ter destruído uma máquina de bebidas, diz ao detective que o interroga que é pobre, mas que tem a habilidade de predizer o que irá acontecer em breve. Embora não consigam saber quem é este homem que diz chamar-se Suzuki, ele avisa a polícia por enigmas sobre o que vai acontecer em breve: uma bomba em Tóquio, seguida de outras que põem a cidade em tumulto. Uma excelente interpretação de Jirô Satô, num argumento que faz o espectador seguir uma história intrigante com jogos de poder sempre inesperados. Esta é a sétima longa-metragem do realizador.
Apreciação: O Fantasporto 2026 arrancou com um filme Japonês com grande potencial, mas que acaba por nunca nos encher as medidas como prometia. E o problema talvez seja meu porque privilegio a narrativa, que aqui tem falhas de ritmo e verosimilhança. Não é um mau filme, consegue ter bons momentos de tensão e os diálogos durante o interrogatório são apelativos e prendem-nos àqueles personagens.
Só que infelizmente a acção do filme abandona a sala de interrogatório várias vezes, para presenciarmos explosões estranhas e pouco verosímeis, a ponto de, a espaços, parecerem ter sido criadas por inteligência artificial. Além disso, a partir de determinada altura, toda a tensão que se vinha construindo esfuma-se em previsibilidade, e a linha de chegada não é tão tensa ou climática quanto o percurso que se fez para lá chegar.
Classificação: ★★★½★
Sábado, 28 de Fevereiro.
15.15 ✦ “The Curse” | A sessão foi alterada para dia 1 às 13.15

Kenichi Ugana, 95’ (Jap) – CF/OE – Horror sobrenatural – v.o., leg ingl e port | Bilheteira
Ler mensagens ou abrir fotos nas redes sociais pode ser muito perigoso. A jovem Riko confia no ex-namorado que vive em Taiwan para a ajudar a desvendar as mortes violentas das amigas Shuffen e Airi. Mas seja o que for que a perturba, tudo tem a ver com mensagens violentas que estas leram e uma foto que envolve uma maldição. Agora também ela vê uma mulher de cabelos longos. Riko e o ex-namorado Jiahao vão procurar ajuda.
Um dos filmes de terror mais esperados do ano, “The Curse” percorre os mitos ancestrais maléficos e junta-os à modernidade através de uma história de redes sociais, jogando com a curiosidade juvenil pelo risco e a aventura. Do realizador da curta “Visitors”, apresentada no Fantasporto 2022.
Apreciação: A secção CF do Fantasporto 2026 começou mal. “The Curse” traz um tema já muito explorado no cinema Japonês de terror (e que já nos deu clássicos como “Ringu” ou “The Grudge“), mas mais não faz do que compilar clichés, sem o mínimo de criatividade ou tentativa de contribuir com algo novo. Além disso o ritmo narrativo é pobre, com um segundo acto arrastado e chato, personagens sem profundidade e uma conclusão previsível e enfadonha.
Classificação: ★★★★★
17.15 ✦ “Futuro, Futuro” | A sessão foi alterada para dia 2 às 13.15

Davi Pretto – 86’ (Brasil)- CF – v.o. port, leg ingl | Bilheteira
No futuro, já não é preciso estudar. A inteligência artificial faz tudo. O mundo dos ricos está fechado e ninguém entra. Um homem amnésico anda à procura de saber quem é e recebe ajuda de uma organização para recuperar a memória e vai reconstituir o seu passado, graças ao oráculo que lê no rosto das pessoas quem elas são e o que viveram. Uma visão pessimista, mas possível, de um futuro distópico. O realizador é conhecido pelas longas-metragens “Castanha” (2014) e “Rifle”, ambas exibidas no Festival de Berlim. Este novo filme, a sua quarta longa-metragem, foi Selecção do Festival de Karlovy Vary e Prémio Brasília 2025.
Apreciação: Já se sabe que o Cinema Brasileiro está em alta no panorama Internacional, com as recentes nomeações de “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” a dezenas de prémios, incluindo Óscares. Mas, se estes filmes têm a ver com a preservação da memória de atrocidades cometidas no passado, “Futuro, Futuro” olha para a frente e prevê um futuro sem futuro, fruto da evolução tecnológica e dos males que fizemos ao planeta. E não tem a ver com futurologia, bolas de cristal ou cartas de tarot, mas com factos e sinais de que esse resultado estará mais ou menos eminente.
O filme de Pretto é portanto uma chamada de atenção para esses sinais e para a forma como o derrotado instinto de sobrevivência humano se acomoda a esse desfecho. Há aqui Inteligência artificial (sem dúvida um dos temas fortes do Fantasporto 2026), as diferenças de classes, que mesmo no fim se mantém, e o realçar de que o fim é solitário, mesmo quando temos um corpo encostado ao nosso. Há uma humanidade gritante neste retrato apocaliptico e a tese clara de que tudo o que construímos para nos aproximar acabou por nos separar ainda mais. “Futuro, Futuro” é poético no seu desencanto e alarmante no seu conformismo. Visualmente, é esmagadoramente bonito.
Classificação: ★★★★½
19.15 ✦ “Journey to no End” | A sessão foi alterada para dia 5 às 13.15

Chen Xian – 94’ (China) – CF/OE – v.o., leg ingl e port | Bilheteira
No futuro, a Terra está quase vazia e os homens são encorajados a passar ao mundo virtual aos 40 anos. Um jovem fica sem o pai e decide procurar a mãe que o abandonara em criança. Na sua aventura na companhia de um amigo, o jovem Cheng Qi encontra várias personagens, um poeta rebelde, o homem mais velho do mundo e até a mãe. Terá de se conformar com a realidade ou com a realidade virtual que o retira da solidão? Esta é a primeira longa-metragem do realizador.
Apreciação: Tenho um problema com a ficção cientifica chinesa, é fria. Por muito boa que seja a fotografia, os efeitos especiais ou mesmo a estória, a narrativa é demasiado calculista para conter emoção. Este “Journey to no End” é mais outro excelente exemplo disso, não há conexão do espectador com as personagens, não há empatia, porque as personagens são meras ilustrações humanas numa elaborada e complexa interpretação do futuro. No fundo, é como ir ao cinema para ver uma tese de mestrado.
Classificação: ★★★★★
21.30 ✦ “Gaua” | A sessão foi alterada para dia 7 às 19.15

Paul Urkijo Alijo – 92’ (Esp) – CF – horror, feitiçaria – v.o., leg ingl e port | Bilheteira
Kattalin é uma jovem casada com um marido violento que vive num meio rural, dominado pelo medo dos seres da floresta, do temor a Deus e à Inquisição. Ao querer fugir do marido, vê-se envolvida com 3 mulheres que lhe vão contar histórias de horror, desde o Padre que persegue uma lebre, a amiga possuída ou o monstro do bosque. Histórias ancestrais de povos isolados com vidas duras, receosos na sua relação com a natureza.
Um excelente exemplo da qualidade do cinema espanhol, sobretudo pela realização, a fotografia e a interpretação da protagonista, Yune Nogueiras. O realizador Paul Urkijo é uma das descobertas do Fantasporto com as curta-metragens “Dar Dar” (2020) e “El Bosque Negro” (2015) e tem já 11 prémios internacionais.
Apreciação: Este filme proveniente do País Basco até tem uma boa fotografia, efeitos visuais e banda sonora, mas o guião é um desfile de clichés baseado em lendas rurais que tem só tem interesse para quem tem afinidade com o tema ou a região. O interesse visual esgota-se em cerca de 15 minutos.
Classificação: ★½★★★
Domingo, 1 de Março.
15.15 ✦ “Scared to Death“

Paul Boyd – 98’ (EUA) – CF – horror sobrenatural, comédia- v.o. leg ingl e port | Bilheteira
Uma casa, vazia há 70 anos, é visitada para poder ser o cenário de filmagens de um filme de terror sobre uma sessão de espiritismo. E que melhor do que introduzir os actores do filme ao tema do que uma sessão a sério dentro da casa? Especialmente por que quem mostra a casa, um antigo orfanato, é um médium e gostaria de conhecer em pessoa o protagonista do filme, o lendário The Grog (uma interpretação notável de Kurt Deimer que também assina a música, tal como em “Hellbilly Hollow”, também exibida este ano). Mas nem tudo corre como esperam.
Divertida e inovadora comédia de horror sobrenatural que foi seleccionada para o FrightFest de Londres. O realizador, Paul Boyd, ganhou o Prémio de Melhor Filme no New York Latino Film Fest.
Apreciação: Dos Estados Unidos chega-nos um filme leve e divertido sobre uma filmagem de uma sessão espírita numa casa assombrada. Ao contrário de “The Curse” o que aqui cativa são personagens bem caracterizadas e que captam o interesse do espectador. Mesmo que o tema seja já muito explorado, o filme é competente no seu único propósito que é entreter. Destque para Lin Shaye, que aos 82 anos continua a esbanjar carisma num género que muitos consideram maldito.
Classificação: ★★★★★
17.15 ✦ “Post Truth“

Alkan Avcioglu – 103’ (Turquia) – CF – mundo digital, Inteligência Artificial- v.o. ingl e port | Bilheteira
Falado em inglês, este é a primeira longa metragem documental totalmente gerada com Inteligência Artificial. Explora a nossa relação com a tecnologia e como estamos, agora, na idade dos algoritmos. Tudo o que vemos e apreciamos, verdade ou não , acaba por nos ser imposto pela manipulação camuflada e um “overload” de imagens e informação que dominam todas as nossas escolhas. Fala também de uma super-secreta reunião em 2007, na Califórnia, onde os grandes decisores da humanidade deram uma estrutura ao mundo futuro que idealizaram.
Um filme que é absolutamente imprescindível ver e que nos abre os olhos para a realidade de hoje e de amanhã. Esta é a primeira longa-metragem do realizador, a lembrar o célebre “Koyaaniskatsi” de Geoffrey Reggio (1982) que ele homenageia. Este filme já vencedor do Prémio do Público no Frontdoc Film Festival.
Apreciação: O grande atractivo de “Post Truth” era perceber se a IA já começaria a ter relevância no cinema. A resposta é simples: não. E não é porque o filme e as imagens aqui criadas não sejam interessantes e apelativas q. b., mas sim porque, principalmente num documentário, lhe falta o mais importante: voz. E digo voz no sentido crítico ou opinativo, não no sentido audível (embora tivesse optado por uma voz mais natural, e sabemos que até aí a IA já chegou).
Só que ter uma opinião ou ponto de vista claro sobre qualquer assunto, é algo a que os computadores não chegarão tão cedo. E o resultado acaba por ser só uma compilação de clips e ideias soltas sobre o tema, chegando mesmo a ser enfadonho a espaços. E será que essa conclusão dá ao filme a relevância que a própria IA ainda não tem?
Classificação: ★★★★★
19.30 ✦ “Cativos“

Luís Alves – 92’ (Port) ANTESTREIA MUNDIAL – SR/PCP – thriller, horror- v.o. port, leg ingl | Bilheteira
O amor é cativeiro. Esta é a premissa que orienta este filme. Um homem aprisiona uma mulher numa cave e vai-lhe citando frases de filmes conhecidos. Diz-lhe que ela é a sua antiga namorada que o deixou. Segue-se um jogo de poder e sedução que mantém a expectativa sobre o desfecho final.
O realizador Luís Alves é conhecido por várias curtas-metragens como ”A Cova” (2011) ou “O Caso Coutinho” (2022), já apresentado no Fantasporto em 2023 e que veio a vencer no Thess International Film festival, entre outros prémios. Com Ana Varela numa interpretação memorável e ainda com Filipe Amorim no difícil papel do sequestrador. Esta é a primeira longa-metragem do realizador.
Apreciação: E o filme mais interessante do Fantasporto 2026 não nos chega de lado nenhum, nasceu cá, por um veterano do festival. Luís Alves tem aqui uma abordagem interessante ao tema da dominação dentro, ou talvez não, das relações. A intenção de evitar os clichés do género compensa, uma vez que o filme nunca vai por onde seria previsível. As duas personagens são tridimensionais e interessantes o suficiente para sustentarem uma narrativa, com um ritmo assumidamente lento e que arrisca tornar-se aborrecido sem nunca cruzar essa linha. Isso é resultado das belíssimas interpretações de Ana Varela e Filipe Amorim e da pragmática fotografia de Nuno Martini. Uma aposta ganha.
Classificação: ★★★★★
Este filme ainda não tem trailer disponível.
21.30 ✦ “The Trek”

Meekaaeel Adam – 103’ (Africa do Sul) – ANTESTREIA MUNDIAL- SR – acção, aventura- v.o. ingl, leg port | Bilheteira
No século XIX, um homem, a mulher grávida e uma filha pequena, atravessam as terras áridas do deserto do Kalahari na África do Sul, guiados por um homem violento. Junta-se a eles um nativo, possuidor de uma sabedoria ancestral. É ele que os vai ajudar, sentindo os espíritos do lugar, embora seja constantemente antagonizado. A luta entre o Bem e o Mal, dependente dos caprichos da Natureza. A descoberta de um exemplo da qualidade do cinema sul-africano actual. Primeira longa-metragem do realizador, um experiente e premiado director de fotografia.
Apreciação: Não é todos os dias que se vêem Westerns vindos da África do Sul, mas é pena. Meekaaeel Adam não inventa a roda, mas traz-nos um filme sólido e emotivo a espaços, com pitadas de uma cultura interessante e pouco conhecida por cá. De resto não há muito a dizer, já vimos esta história contada inúmeras vezes em outras paragens, mas nem sempre com esta competência e com personagens tridimensionais de uma ponta à outra, que nos agarram forte e empaticamente à narrativa.
Classificação: ★★★½★
Que filmes estão a pensar ir ver ao Fantasporto 2026, e qual vos chama mais a atenção?