Cinema 2025 – Os Melhores (e piores).

| Lido 1.031 vezes

Depois de ter falhado em 2023 e 2024, este é o meu balanço para o Cinema 2025. Este foi um bom ano para o cinema, principalmente para o Cinema de Terror, que, como sabem, é um dos meus géneros de eleição. Não só estrearam filmes que fugiam aos parâmetros normais do género, como houve estreias ao longo de todo o ano e não apenas no Halloween.

Foi o ano em que me lembro de dar mais 5 estrelas, o que tornou difícil a ordenação deste top. Os primeiros 6 lugares andaram-me às voltas na cabeça desde o momento em que os vi e 4 deles poderiam, até ao fim, terminar no primeiro lugar. Este é portanto o top de hoje, mas que amanhã, tal como ontem, poderia ter outra ordem no topo.

E para terem uma ideia de todos os filmes vistos e respectivas classificações, podem aceder e seguir-me no letterboxd, cujo QR code clicável para o meu perfil está na barra lateral (ou no final da página se estiverem a ler em mobile). Posto isto, todos os filmes aqui listados foram estreados nas salas e/ou foram lançados nas plataformas de streaming (nesse caso adicionarei os links respectivos). Vamos então ao balanço do Cinema 2025.

Cinema 2025 – Os Piores.

War Of The Worlds”, de Rich Lee.

Este é praticamente unânime e muitos o consideraram o pior filme de sempre. A premissa até é interessante, a transposição de um clássico para a era digital e pós pandemia, mas o resultado é tão mal executado, com um storytelling (e vão ler esta palavra mais vezes ao longo deste artigo) pobre e interpretações francamente más. É chato, desinteressante e incómodo pelo tempo que desperdiçamos com ele. A evitar.

Classificação: ½★★★★

Sirât“, de Oliver Laxe.

Este é o caso mais subjectivo desta lista. Já o vi em diversas listas de melhores e até em primeiro lugar, mas no meu entendimento do cinema, que é acima de tudo (mas não exclusivamente) storytelling, “Sirât” foi a maior desilusão do ano. Começa com a premissa, um homem cuja filha desapareceu após ir a uma rave em Marrocos, vai com o filho, de rave em rave, à procura dela. Ora, no fim do filme, a premissa poderia ser qualquer outra que o filme seria exactamente o mesmo.

Poderia ser só um homem que adora raves a partilhar a sua paixão com o filho, ou um traficante de ecstasy que não tem a quem deixar o filho e tem de o levar com ele para poder fazer negócio. Aliás, acho que qualquer uma destas premissas resultaria melhor com o resto do filme. As personagens são desinteressantes, o ritmo narrativo varia ao sabor do vento do deserto, as interpretações são sofríveis, e o realizador não sabe se quer contar uma estória ou ser apenas contemplativo. E não tenho nada contra filmes contemplativos, desde que não o sejam de forma aleatória como este é.

Por último, mais duas coisas tornaram o filme quase insuportável para mim. A irritante “música” electrónica e a crueldade gratuita para com as personagens no terceiro acto. Estar nomeado para os Globos de Ouro de Melhor Filme Internacional e Melhor Banda-sonora é, para mim, no mínimo, irónico.

Classificação: ★★★★

Jurassic World: Rebirth“, de Gareth Edwards.

O que a última trilogia de “Jurassic World” nos tinha demonstrado é que a magia estava a morrer. Nem no último filme, em que trouxeram o elenco original, se notaram melhorias na inovação narrativa e na criatividade. Esta ideia de um novo reboot, com novo elenco e novos dinossauros, precisava de uma volta de 180º em termos de estória e de mitologia.

Não acontece, é o mesmo filme de sempre sem qualquer tipo de inovação e interesse. Apenas um festival de efeitos especiais para encher o olho e deixar a alma a roncar de fome. É chato, muito chato, prevísivel e inconsequente. E até a presença de Scarlett Johansson parece forçada. Ao sétimo filme, podemos enterrar esta saga de uma vez, por favor?

Classificação: ½★★★

Cinema 2025 – Menções Honrosas.

Better Man“, de Michael Gracey.

Biopics de figuras da música há muitos. Só nos últimos tempos tivemos Freddy Mercury, Elton John, Bob Dylan e Bruce Springsteen, entre muitos outros. O que todos estes filmes têm em comum é o facto de capturarem parte da vida destas figuras de forma objectiva e semelhante uns aos outros. A diferença está apenas na personalidade do retratado e não na forma. Até agora.

“Better Man” retrata Robbie Williams como um macaco e isso dá-lhe uma frescura criativa que cativa desde o primeiro momento. Aquilo que seria mais um biopic melodramático e inconsequente transforma-se numa sátira ao stardom, à fama e à individualidade. Consegue ser emotivo, divertido e profundo, pontuado por momentos musicais que tão bem conhecemos. Era bom que todos os biopics fossem tão criativos.

Classificação: ★★★

Predator: Killer of Killers“, de Dan Trachtenberg.

Enquanto se esperava pela estreia nos cinemas de “Predator: Badlands“, de Dan Trachtenberg, a Disney + surpreendeu ao lançar esta animação do mesmo realizador. À semelhança de “Prey“, com lançamento apenas no streaming a nível mundial, “Predator: Killer of Killers” é um dos melhores filmes da saga, até porque acrescenta algo importante a esta mitologia, o conceito de tempo como algo maleável.

A razão por que o filme resulta bem melhor que “Badlands” é o seu storytelling e o estilo de animação que se começa por estranhar e depois se entranha, adicionando uma camada extra de interesse. E isso é o resultado da liberdade dada ao realizador. Toda a gente sabe que o circuito comercial dos cinemas é mais restrito e mais caro, com a obrigatoriedade de ter maior margem de lucro. “Badlands” é um produto formatado e desinteressante, ao passo que “Killer of Killers” é mais criativo e experimental, o que parece facilitar e enriquecer o trabalho de Trachtenberg.

Classificação: ★★★

Companion“, de Drew Hancock.

Já escrevi sobre “Companion” nas minhas sugestões para o Halloween 2025, e pouco mais há a dizer. A minha opinião não mudou desde essa altura, e apesar de não ser um filme de terror puro e duro, tem momentos de gore muito bem executados. É divertido e actual no tema, sem o aprofundar. É bem executado e cumpre com tudo o que promete, o que é mais do que se pode dizer sobre a maioria dos filmes que vemos todos os anos.

Classificação: ★★★

Oddity“, de Damian McCarthy.

Este é outro exemplo de como o ano de Cinema 2025 foi bom para os filmes de terror. “Oddity” é uma produção da Shudder, plataforma de terror indie dos Estados Unidos, que, volta e meia, consegue produzir bons filmes que nos passam despercebidos. Neste caso, o filme de McCarthy teve estreia em sala, o que é um feito invulgar dada a sua origem, mas que atesta a sua qualidade.

Dado o baixo orçamento, Oddity é daqueles filmes que se passam num único local, com um limitado grupo de actores e que tem de apelar à criatividade para conseguir ter impacto. E tem. “Oddity” é dos raros filmes de terror que me arrepiou mais do que uma vez. E não falo de pele de galinha, falo daqueles choques elétricos que nos descem pela espinha e duram alguns segundos. Sem efeitos especiais, sem grandes truques de montagem, apenas tensão e sentido de oportunidade.

Classificação: ★★★

O Agente Secreto“, de Kleber Mendonça Filho.

Foi o último filme que vi este ano, e falhou por pouco o top 10. Talvez porque precise de amadurecimento. Foi um filme que ficou aquém das expectativas, mas que ganhou terreno nos dias a seguir à sua visualização. O Hype é enorme e o filme cumpre. Pela história, pela realização, pelas interpretações. É um filme que exige paciência do espectador, pelo ritmo lento e por não ter uma exposição oferecida. Mas a partir do momento em que percebemos o que se passa, o filme ganha dimensão e tensão, que mantém até ao final.

Cinema 2025 – Top 10.

#10 – “Bring Her Back” de Danny PhilippouMichael Philippou.

Cinema 2025 - Bring Her Back

Da A24 e dos realizadores de “Talk To Me“, de que falei nas minhas sugestões para o Halloween 2024, chega-nos um novo e intenso filme de terror acima da média, pelo tema, pelo elenco pelo ritmo narrativo. É daqueles filmes que se passam quase num só local, dando-lhe uma sensação de claustrofobia e tensão, bem estruturados na estória de dois irmão que vem para a casa de uma família adoptiva, neste caso de uma mãe que perdeu a única filha e vive com outro filho adoptivo, supostamente com problemas mentais.

Desta premissa crescem conflitos e ameaças, com Sally Hawkins a ter uma interpretação tour de force, que torna o filme mais eficaz e consequente. E Jonah Wren Phillips, o miúdo que aparece no poster é brilhante na expressão facial e física, adensando o clima de mistério (que posteriormente se transforma em terror e gore). A A24 continua a mostrar que é a produtora mais revelante no cinema de género actual, e uma fabrica de talentosos realizadores.

Classificação: ★★

#09 – “It Was Just an Accident” de Jafar Panahi.

Cinema 2025 - It Was Just an Accident

Jafar Panahi, o consagrado realizador Iraniano perseguido pelo regime e que tem tem de filmar em segredo e tirar os seus filmes do Irão à socapa, volta com um intenso filme político baseado na sua condição de ex-preso político. Depois de um acidente, um homem leva o carro à oficina mais próxima. O dono da oficina reconhece-o como o homem que o torturou quando foi preso político e resolve matá-lo. Mas antes tem de ter a certeza que é mesmo o torturador, e contacta outras pessoas que passaram pelo mesmo para o ajudarem a identificá-lo.

Aquilo que começava por ser ‘só’ um acidente torna-se uma road trip ao passado e a memórias que muitos tentam esquecer. Pahani é exímio a contar histórias pessoais, que nos mostram uma realidade crua e violenta de um regime dictatorial actual, mas através de narrativas empáticas e por vezes complexas, com um ritmo próprio e sem que se perceba a dificuldade que tem em fazê-lo. Ganhou a Palm D’Or em Cannes, e é uma das maiores apostas desta temporada de prémios. Mais do que isso, é um filme imprescindível para quem quer perceber uma realidade que só nos chega nos rodapés dos telejornais.

Classificação: ★★★½

#08 – “A Real Pain” de Jesse Eisenberg.

Cinema 2025 - A Real Pain

É um filme de 2024, nomeado aos Óscares do ano passado, mas que só estreou em Portugal para o Cinema 2025. É um daqueles filmes filmes independentes que dependem do argumento e dos diálogos e da entrega dos actores. É a sua simplicidade que nos toca, na honestidade com que aquelas personagens nos são apresentadas. Kieran Culkin venceu merecidamente o Óscar e Eisenberg, que eu nunca apreciei especialmente com actor, revela-se um realizador bem mais interessante e um argumentista com muito conteúdo.

É, se quisermos, um filme cómodo, previsível, mas a sua previsibilidade é colmatada com a simplicidade da estória, com a conexão das personagens que nos leva numa viagem que é bem mais interessante do que o destino. É divertido, mas tenso a espaços pela história que indirectamente revisita e que nos tempos que correm não é revisitada o suficiente.

Classificação: ★★★½

#07 – “The Seed Of The Sacred Fig” de Mohammad Rasoulof.

Cinema 2025 - The Seed Of The Sacred Fig

Também no Cinema 2025, um filme candidato aos Óscares em 2024. E também mais um filme Iraniano, que assenta nas atrocidades cometidas pelo regime, mas também pela luta, mais ou menos silenciosa, contra o mesmo. Quando os dois lados existem na mesma família, o resultado é tensão constante e um terceiro acto digno de filme de terror, a lembrar, pela forma, o confronto final de “The Silence Of The Lambs“.

Rasoulof, de quem já tínhamos visto por cá “O Mal Não Existe“, consegue dar-nos um retrato preciso e um pouco mais abrangente do que o de Pahani, da dificuldade de viver sob este tipo de regime. É um filme importante pela sua humanidade e componente política. Tal como “It Was Just an Accident”, “The Seed Of The Sacred Fig” devia ser um filme obrigatório para o entendimento do mundo em que vivemos.

Classificação: ★★★½

#06 – “Frankenstein” de Guillermo Del Toro.

Cinema 2025 - Frankenstein

Já falei abundantemente de “Frankenstein” num artigo que podem ler aqui. Mas resumindo a minha crítica, no final pode ler-se assim:

“Frankenstein” é um drama gótico, visceral e apaixonado, pela relação semelhante à de pai e filho, a de criador e obra. Tem todas as nuances desse tipo de relações: autoritarismo, egoísmo, amor, desilusão, inveja, ódio, vingança. É visualmente portentoso e sincero. E é cinema clássico, daquele que os estúdios já não fazem. Esta será, a partir de agora, a versão definitiva do clássico de Mary Shelley.

Classificação: ★★★★

#05 – “Ainda Estou Aqui” de Walter Salles.

Cinema 2025 - Ainda Estou Aqui

Outro filme de 2024 que só estreou a tempo do Cinema 2025. “Ainda Estou Aqui” ganhou merecidamente o Óscar de melhor filme Internacional e abriu as portas para que o cinema brasileiro fosse observado com mais interesse além fronteiras. À semelhança de “O Agente Secreto” passa-se no período da ditadura militar Brasileira e estende-se até ao presente, com as suas sequelas e feridas ainda por sarar. Se os filmes Iranianos desta lista mostram uma ditadura actual, os Brasileiros dizem que os seus efeitos humanos perdurarão por muito tempo.

Salles consegue aqui um filme sóbrio e elegante, cuja emoção está nas subtilezas. O elenco percebeu que as feridas são interiores e são contidos na sua exposição. Fernanda Torres foi roubada nos Óscares, tal como sua mãe Fernanda Montenegro (que também tem uma magnifica interpretação aqui, aos 95 anos) o tinha sido 19 anos antes. “Ainda Estou Aqui” transpira realidade emocional e alerta para o facto da História tender a repetir-se. E esse é o mais importante aviso na actualidade.

Classificação: ★★★★

#04 – “The Life of Chuck” de Mike Flanagan.

Cinema 2025 - The Life of Chuck

Toda a gente que frequenta este estaminé sabe que sou um fã incondicional de Mike Flanagan. É o mais humano e emotivo realizador da actualidade no género do Terror. Aqui, volta a adaptar Stephen King pela terceira vez, mas neste caso, e pela primeira vez, fora do género que o definiu. “The Life Of Chuck” é um drama sobre a vida de um homem comum e mostra que, através das vidas que tocamos e com quem interagimos, somos todos extraordinários.

Flanagan leu o conto durante a Pandemia, e logo ali soube que tinha de o adaptar. E ninguém adapta como flanagan. Sempre que adaptou obras de outros, deu-lhe o seu cunho pessoal e várias vezes, com o pretexto de adaptar um livro, adaptou uma obra inteira (nos casos de Henry James e Edgar Alan Poe). No caso de “Dr. Sleep” cometeu o feito extraordinário de adaptar a sequela do livro “The Shinning“, mas também prestando homenagem ao filme de Stanley Kubrick que king odiou.

Aqui, praticamente não tocou no original. Flanagan percebeu que, qualquer alteração ou adição que fizesse ao original, lhe tiraria força. A estória está dividida em três actos, mostrando quatro fases da vida de Chuck. A genialidade de King e Flanagan ao reverter a ordem dos actos, torna-o um filme (e conto) singulares. E torna a experiência do espectador mais difícil, com um terceiro acto caótico, saído de um filme catástrofe ou de ficção cientifica. Até percebemos que a vida de Chuck é a vida de todos nós.

Poderia estar aqui a escrever muito mais sobre o elenco, a realização, o strorytelling, mas “The Life Of Chuck” é um filme para ser experienciado. É um dos melhores filmes do ano e poderia estar em qualquer dos lugares superiores desta lista (já esteve e voltará a estar). E isso diz muito sobre a qualidade do Cinema 2025.

Classificação: ★★★★

#03 – “Sinners” de Ryan Coogler.

Cinema 2025 - Sinners

Já escrevi sobre “Sinners” nas minhas sugestões para o Halloween 2025. Resumindo o que disse na altura (se tiverem preguiça de clicar no link), é outro dos enormes filmes do Cinema 2025, e é melhor a cada nova visualização.

Classificação: ★★★★

#02 – “Weapons” de Zach Cregger.

Cinema 2025 - Weapons

E também já escrevi sobre “Weapons” numa sugestão extra para o Halloween 2025. Mais uma vez, podem seguir o link e ler o que escrevi sobre ele. Resumindo, no último parágrafo pode ler-se o seguinte:

É um filme de género sólido, bem construído (e desconstruído, principalmente na narrativa), que nos deixa a sensação de que vimos mais do que um filme de terror, participámos dele também.

Classificação: ★★★★

#01 – “One Battle After Another” de Paul Thomas Anderson.

Cinema 2025 - One Battle After Another

No topo do top Cinema 2025, o último fresco de mais um dos maiores autores actuais, Paul Thomas Anderson. E se há autores que se cingem a um género, Anderson é daqueles que nunca sabemos que filme vamos ver, é imprevisível, sem comprometer o seu estilo e a sua autoria. E “One Battle After Another”, é dos seus filmes mais divertidos, a lembrar os tempos de “Boogie Nights“, mas com outro tipo de preocupações que lhe dão profundidade e maturidade política.

E este é mais um filme político nesta lista, a sublinhar os tempos conturbados e imprevisíveis que vivemos. Mas, e é essa a sua maior força, não é panfletário. Anderson apresenta-nos um espectro de personagens das mais diversas faccões políticas e trata todos por igual. Nós escolhemos o lado e, até sabendo que o melhor vencerá, damos por nós a torcer esporadicamente por alguém do lado oposto.

Claro que isto deriva do excepcional elenco e na capacidade que os melhores actores tem de humanizar as mais pérfidas personagens. E isso também é parte do gozo que se tem em ver “One Battle After Another”, a forma como nos atrai e puxa para dentro desta série de batalhas. Poderia elogiar as questões técnicas do filme, mas tratando-se de Anderson seria redundante dizer que nada foi deixado ao acaso.

Se houver justiça, “One Battle After Another” vai ganhar todos os prémios que houver para ganhar, e, também por isso mas não só, termina no #1 do Cinema 2025.

Classificação: ★★

Concordam com estas escolhas do Cinema 2025? O diálogo está aberto na secção de comentários.

Deixe um comentário